sexta-feira, 20 de maio de 2016

A DIREITA DE CORPO INTEIRO


Para quem se dedicava a dizer que direita e esquerda eram categorias superadas, o Brasil é um choque de realidade. Fazia tempo que um governo não se mostrava, de corpo inteiro, como expressão da direita, em todos os campos. (Quem alegar que se trata de uma exceção, basta olhar para Argentina e verá a confirmação do que estamos dizendo.)

No período histórico atual, a direita defende o neoliberalismo como modelo econômico. As lutas de fundo da nossa época se dão entre quem defende esse modelo, que busca mercantilizar tudo, fazer com que tudo tenha preço, tudo se compre, tudo se venda, e as alternativas e buscas de sua superação, afirmando os direitos de todos. Uns governam para os que interessam ao mercado, os outros tratam de governar para todos.

A direita do nosso tempo é seletiva, excludente, porque se baseia nos mecanismos de mercado, da eficiência, da lucratividade. Por isso os mais frágeis são suas primeiras vítimas. A austeridade grega começou terminando com os remédios gratuitos para os idosos, medida que também se implantou na Argentina e que se anuncia aqui. Estão fora do mercado, já não são produtivos, nem consumidores de produtos de luxo, não têm influencia na formação da opinião pública. E agora vivem mais tempo, transformando-se em ônus para a sociedade mercantil. E assim se segue em outros setores da sociedade: crianças e jovens negros, deficientes físicos, artistas da periferia, mulheres donas de casa, entre outros, generalizando-se para todos os pobres, a grande maioria da nossa sociedade.

Um malthusianismo social se instala, que seleciona conforme os critérios de mercado. Não são necessários tantos trabalhadores, basta apenas uma certa quantidade de especializados, os outros sobreviverão na precariedade. Não é necessário produzir para alimentar o lucro das empresas, basta especular, comprar papeis baratos e vender caros, tomar dinheiro dos clientes a um preço e emprestar 10 vezes mais caro. Quem se der bem, sobrevive, quem não, fica pelo caminho, não foi capaz de corresponder às exigentes necessidades do mercado.

A ação interina do governo Temer passa a limpo todas as políticas sob essa ótica. Empresa estatal tem que dar lucro, não que prestar serviço à sociedade. Banco público não é para fazer política social, se não produzir lucro, não serve. Já existem os bancos privados. Programas sociais que desperdiçam recursos devem ser revistos e passados a limpo. O governo não existe para sustentar pessoas improdutivas. Empresários têm que pagar menos impostos, para que disponham de mais recursos para fazer seus negócios.

O Estado tem que ser mínimo e o mercado máximo. O Estado é fonte de burocracia, de desperdício, de corrupção e por isso deve ser reduzido a uma mínima dimensão. O mercado é a fonte da expansão econômica, da produtividade, ele pune os incompetentes e remunera os competentes.

A educação não é uma política social, ela faz parte da economia, deve preparar mão de obra para a indústria. Enem, Fies, ProUni são custos excessivos sem retornos econômicos. Nas universidades públicas, tudo o que der, deve ser pago. Médicos de fora do Brasil, nem pensar, temos os profissionais competentes aqui mesmo. SUS, saúde para todos, é um luxo que não podemos nos permitir. "Quanto mais gente tiver plano de saúde privado, melhor", disse o novo ministro da saúde, cuja campanha eleitoral teve esses planos como seus principais financiadores.

O Estado não deve ser proprietário de empresas, essa é uma função da economia privada. Compete ao Estado dar o apoio para a acumulação privada de riquezas, com financiamentos subsidiados, isenções, infraestrutura e outras formas de baratear os custos das empresas privadas.

Cultura, direitos humanos, igualdade racial, direitos de mulher – são temas secundários e devem estar integrados a outros ministérios. Ministério da Justiça vai se ocupar dos direitos humanos, Ministério da Educação da Cultura e assim por diante. Quanto à ciência e Tecnologia, não temos que inventar a roda, basta importar tecnologias dos países mais desenvolvidos.

A função de imprensa já esta em mãos das empresas privadas secularmente, a mídia pública deve se limitar a dar os comunicados oficiais do governo e a prestar serviços de informação das atividades do governo à população.

Enfim, o Estado atua em função do mercado, o país se adaptar às dimensões e necessidades do mercado, as políticas do governo promover a eficácia econômica, as contas ajustadas, que as pessoas se adaptem ao Estado que, por sua vez, se adapta ao mercado.


Quem tinha se esquecido do que é a direita, em toda sua extensão e radicalidade, tem agora uma fotografia de corpo inteiro, com toda a frieza e a crueldade que elas contem. Quanto à esquerda, em todas as suas correntes, privilegia as necessidades das pessoas, busca tornar o Estado um instrumento da democratização econômica, social, politica e cultural, trata de ser governo para todos. Diferenças abismais, como aquelas que hoje separam e contrapõem o governo golpista e as imensas e fantásticas mobilizações de rejeição a esse governo.

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