terça-feira, 1 de maio de 2018

ESPERANDO UM MORTO

Texto de Tereza Cruvinel


Os fatos dizem que a extrema direita está optando pela  máxima do estrategista alemão Carl von Clausewitz de que “a guerra é a continuação da política por outros meios”.  Vale dizer, por meio da violência. A execução de Marielle Franco, os tiros contra ônibus da caravana do ex-presidente Lula e agora contra militantes acampados em sua defesa, em Curitiba, não deixam dúvida. Neste ritmo, em breve haverá um corpo estendido no chão.  Mas é falso dizer que a polarização produz uma escalada bilateral da violência. É preciso reconhecer que a extrema-direita é que está mandando balas contra ativistas da esquerda.

Não se pode comparar os dois ataques a tiros com ações do MST e do MTST, que invadem áreas rurais ou urbanas em busca de terras ou habitações. Nem com a pichação do prédio em que a presidente do Supremo mora em Belo Horizonte. Estes atos constituem ataques à propriedade privada mas não se tem notícia de atentados a bala cometidos pela esquerda contra seus adversários. O acampamento de Curitiba é pacífico, tendo angariado a simpatia de moradores da redondeza, que lhes oferecem água e banho. Veio do outro lado a tentativa de assassinar pessoas acampadas, ferindo duas, uma gravemente.

Nos dois atentados, a pertinência ideológica de seus autores é clara. Eles gritaram “Bolsonaro presidente” antes de atirar, em Curitiba. No Rio Grande do Sul, antes dos tiros, a caravana de Lula sofreu diversas agressões por grupos que se identificavam com o candidato do PSL.

Bolsonaro chegou ao segundo lugar nas pesquisas eleitorais porque conseguiu encarnar o ódio semeado, que pode gerar a qualquer hora o cadáver político.  Ele chegou a simular com a mão o gesto de atirar, apontando para um boneco de Lula.  Desde 2014, na esteira da Lava Jato, muitas fontes alimentaram o ódio que ganhou seu leito nas redes sociais, com ataques a “esquerdopatas” e “petralhas”. Eles revidaram com o epíteto de “coxinhas” mas não deram tiros. 

Marielle pode ter sido assassinada por milícias mas isso não altera a natureza política do crime. Como no caso dela, as autoridades ainda não foram capazes de identificar e punir os autores dos disparos contra a caravana e o acampamento. Escoram-se na retórica de que eles decorrem da “polarização”, como se partissem de dois polos fora de controle, e não apenas de um. Se os democratas, do centro e da direita não fascista, não forem capazes de reconhecer de onde está vindo o perigo, e de agir para contê-lo, mais tarde pode ser tarde. Até mesmo para que haja eleição este ano. Ou não será isso que estão querendo?

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